Em defesa da ação direta: por que apoiar o "incêndio da Estátua de Borba Gato"

Em 24 de julho de 2021, o povo novamente foi às ruas pelo Fora Bolsonaro em mais um de muitos atos contra o presidente genocida protagonizados pela esquerda; contudo, à diferença dos atos anteriores, uma incendiária ação direta esquentou ainda mais este nosso grande caldeirão político que chamamos de Brasil – um ataque à Estátua de Borba Gato, em São Paulo.

Arte, história e política são expressões da realidade. Falta a alguns críticos (e mesmo apoiadores) do incêndio da Estátua de Borba Gato enfrentar seriamente os aspectos políticos do problema.

Eis o que eu penso sobre o assunto.

Estátua de Borba Gato é incendiada em São Paulo, em 24/07.
O Coletivo Revolução Periférica, vinculado à Unidade Popular, assumiu a responsabilidade pela ação.

Um pouco de contexto

A construção da Estátua de Borba Gato foi resultado de um concurso público realizado pela Prefeitura de São Paulo na década de 50 para homenagear o Quarto Centenário de Santo Amaro, a ser celebrado em 1960 – então bairro da capital paulista, Santo Amaro já havia sido cidade autônoma. O escolhido para erguer o monumento, que apenas seria concluído em 1963, foi o premiado escultor João Guerra. Leia mais sobre a história da estátua aqui e aqui.

Ainda que não me pareça irrelevante o debate em torno do inegável valor artístico e histórico da gigantesca escultura de cerca de dez metros de altura, penso que esta discussão deva vir acompanhada de uma reflexão séria sobre o papel político que a obra tem cumprido (isto é, os efeitos políticos concretamente observáveis que decorrem da existência da obra) e o papel político desempenhado pelo ataque realizado (isto é, os efeitos políticos concretamente observáveis que decorreram do ataque).

"Dai a Gato o que é de Gato..."

A bem da verdade, é preciso reconhecer que, ao contrário do que circula por aí, o desprezível bandeirante Manoel de Borba Gato não foi mesmo um “caçador de índios”; foi, isso sim, um “caçador de esmeraldas” – um caçador de esmeraldas que, apenas por acaso, deu para “domesticar” indígenas após assassinar um representante da Coroa Portuguesa e evadir-se para a então desconhecida região do Vale do Rio Doce, onde passou a viver entre nativos. Esse vídeo fala um pouco sobre a vida desse polêmico personagem de nossa história.

O bandeirante Manoel de Borba Gato, em imagem idealizada do séc. XX

Sem nenhuma ironia, certamente há alguma diferença entre “ser um caçador de índios” e “domesticar indígenas por força das circunstâncias”, mas não creio que essa diferença afaste o fato de que Borba Gato é, no mínimo, indigno de ser homenageado com uma estátua.

O que podemos observar?

Não me debruçarei sobre a veracidade da afirmação de que a Estátua teria sido criada com objetivos de contestação artística (contestação ao modo de se representar figuras históricas ou aos materiais utilizados nessas representações, por exemplo), mesmo porque, uma vez exteriorizada, a arte foge do controle do artista. Noto, porém, que a realidade não deixa dúvidas acerca do absoluto ou quase absoluto fracasso do eventual intento contestatório do idealizador da Estátua. Leiamos, por exemplo, um trecho desse artigo em defesa do monumento escrito por um conhecido jornalista, que representa bem quais têm sido os impactos políticos da obra:

Sempre admirei ‘aquele’ Borba Gato; pelo tamanho e detalhes da obra. E jamais me peguei pensando em quem foi o bandeirante e o que ele fez. Aquilo é um patrimônio público, um equipamento edificado e custeado por todos os cidadãos paulistanos. E posso dizer: poderia estar em qualquer grande cidade do mundo.

 Para a maioria dos transeuntes que passeiam na Praça Augusto Tortorelo de Araújo, bairro de Santo Amaro onde a Estátua está situada, a obra não convida a nenhuma reflexão histórica, política ou mesmo apenas artística séria. Produz, no máximo, uma curiosidade que, via de regra, não conduzirá a muito mais que considerações superficiais acerca do tamanho do monumento, sua imponência ou sua origem.

No entanto, se me parece óbvio que aquele imponente Borba Gato não tem sido eficaz no convite à reflexão e à contestação, penso ser igualmente óbvio o papel que a escultura tem desempenhado em suas quase seis décadas de existência: exaltar e glorificar o bandeirante. Sendo bastante generoso, diria até mesmo que, ainda que não o exalte ou o glorifique, no mínimo dificulta o fortalecimento de sua rejeição, uma vez que nitidamente não contribui para aumenta-la.

O  xis da questão

Estátua de Cristóvão Colombo é derrubada na Colômbia, em junho de 2021. 

Deixando de lado uma reflexão (talvez necessária para outros fins) mais aprofundada sobre quais critérios devem ser levados em conta antes de decidirmos sobre a legitimidade ou ilegitimidade de ataques a monumentos em geral, pretendo ater-me, aqui, apenas à discussão sobre esse ataque em particular – e adianto entender que todo cidadão brasileiro minimamente comprometido com uma sociedade mais justa possui motivos suficientes para apoiar o ato, o que nos conduz à reflexão sobre o papel político por ele desempenhado, em oposição aos efeitos (já discutidos) da existência da Estátua em si.

Homenagem a... isso?

Se assumirmos ser praticamente irrelevante o suposto intento contestatório do idealizador da Estátua de Borba Gato, logo concluímos que não se sustenta a tese de que a obra apenas “representa” o bandeirante, sem, contudo, “homenageá-lo”, sem glorifica-lo ou exalta-lo: concretamente, o efeito político que facilmente se observa é ora esta glorificação ou exaltação (ergueram uma estátua para o homem em praça pública, carambolas!), ora um freio ao aumento da rejeição a uma figura indigna de ser homenageada. O lugar da Estátua de Borba Gato é, no máximo, num museu.

Independentemente de todas as inúmeras nuances em torno de sua personalidade e de seu papel histórico, o fato de que Borba Gato “não é suficientemente digno” (para dizer o mínimo) de ser homenageado com uma estátua já é um bom motivo para apoiar o ataque, cujo efeito político mais evidente é a contestação (política) da homenagem a um homem indigno de ser homenageado.

A ação direta alimenta o debate

Por outro lado, se o idealizador da estátua possuía qualquer intento contestatório ou objetivava promover qualquer reflexão sobre o significado histórico de bandeirantes como Borba Gato, é em sua memória (Júlio Guerra, o escultor responsável pela estátua, faleceu em 21 de janeiro de 2001) que devemos apoiar a ação contra a estátua – pelo menos a julgar pelo enorme aumento das pesquisas sobre Borba Gato na internet.

A Google possui uma ferramenta chamada “Google Trends”. Por meio dela, é possível identificar a evolução do número de buscas por uma determinada palavra-chave no provedor de pesquisas. Consultando a expressão “quem foi Borba Gato” na plataforma, por exemplo, é possível notar que nos últimos cinco anos houve um agressivo aumento do interesse pelo termo em 24 de julho, data em que a ação direta foi executada.

Evolução do interesse pela expressão "quem foi Borba Gato" no Google nos últimos cinco anos.

A conclusão que podemos tirar desse resultado é que ações diretas como a aqui examinada possuem forte impacto social, convidando a sociedade a refletir ativamente sobre temas políticos e históricos que, de outra forma, jamais receberiam semelhante atenção – salvo, talvez, se apostarmos no interesse da classe dominante e do Estado em promover a conscientização política do povo acerca desses assuntos.

Assim, não se pode alegar que ações contra monumentos dificultem ou mesmo interditem o debate acerca daquilo que representam. É verdade que esses atos, por si sós, são insuficientes para causar qualquer transformação profunda na consciência social, mas a história oferece diversos exemplos de sua efetividade.

Tentativa de "apagar a história"? Oi???

De fato, a remoção de representações artísticas glorificadoras de um passado infame não apenas tem sido uma ação política recorrentemente empregada, como também pode comprovadamente contribuir para a superação desse passado a partir de uma reflexão séria sobre a tragédia ocorrida – lembremos, por exemplo, do processo de desnazificação da Alemanha após o fim da Segunda Guerra Mundial ou, como salientou a vereadora de Belo Horizonte Duda Salabert (PDT) em tweet sobre o assunto, a remoção da estátua de Luiz XIV na Tomada da Bastilha, durante a Revolução Francesa.


O único ineditismo, se existente, no incêndio da Estátua de Borba Gato está no fato de ter ocorrido no Brasil, onde quase não se vê exemplos de ação direta.

"Eu não pago imposto para isso"

Por fim, não é preciso grande esforço para se responder às superficiais e sempre presentes críticas daqueles que se opõem a ataques contra monumentos públicos apenas com base no fato de que foram erguidos com... dinheiro público. O dinheiro público deve ser bem utilizado, e o prejuízo, inclusive político, decorrente de sua má utilização, minorado.

Ocorre, porém, que não podemos atribuir exclusivamente às famigeradas “instituições democráticas” (corrompidas, extremamente falhas e pouco democráticas, como sabemos) a legitimidade para definir se houve ou não má utilização dos recursos públicos. Assim, se o Poder Público reiteradamente se recusa a minorar o prejuízo causado, demonstrando-se insensível a “ações institucionais”, a pressão política deve ultrapassar os limites da institucionalidade e o povo deve praticá-la onde se demonstre mais estrategicamente capaz de promover a mudança desejada.

Dinheiro público mal gasto 

Não encontrei qualquer registro dos recursos públicos empenhados na construção da Estátua de Borba Gato, mas o fato de representar quem representa já deveria gerar, por si só, uma “dúvida razoável” acerca do bom emprego de nossos tributos. No entanto, a promulgação da Constituição de 88, supostamente inauguradora de uma “Nova República” (que já nasceu velha, como dizia Prestes), não deveria deixar dúvidas sobre o absoluto descabimento de uma homenagem em praça pública (financiada com dinheiro público) a uma figura desprezível até mesmo para os padrões do Brasil colônia e do grupo que representa.

O lugar da Estátua de Borba Gato, repito, é, no máximo, num museu.

Conclusão

Entendo que, assim como eu mesmo até alguns dias atrás, talvez muitos dos militantes envolvidos na ação direta, desconhecedores de sua história, provavelmente acreditavam que Borba Gato tenha sido um “caçador de índios”, desprezando-o pelos motivos errados. Ainda assim, é inegável que, a despeito disso, a ação direta contribuiu mais para uma reflexão séria sobre o nosso passado do que a mera preservação da estátua.

Isso não significa que devamos rechaçar de plano todas as críticas dirigidas à ação. Pelo contrário, em especial no caso dos marxistas, devemos acolher estas opiniões como oportunidades de politização da sociedade, analisando politicamente o problema sob a ótica do materialismo histórico-dialético – sem, obviamente, desprezar os aspectos históricos e até mesmo artísticos da questão.

De toda forma, minha maior insatisfação, assumo, é com o fato de que aquela estátua, bem como os valores da sociedade em que viveu o homem por ela homenageado, seguem quase completamente incólumes...

Liberdade para Galo!


Wesley Costa (@wesvrc) é baiano, tem 25 anos e cursa Direito na Universidade Federal da Bahia. Filiado à União da Juventude Socialista, é um dos coordenadores do Centro Acadêmico Ruy Barbosa (@carbufba) e do coletivo da UJS na mesma universidade (@nucleoloretavaladares). Apaixonado pelo debate, acredita firmemente que a história do Brasil já deixou muito claro que tudo é frágil fora da revolução.

 

Referências

“Borba Gato: Um bandeirante muito concreto - Eduardo Bueno”. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=UKHK80py4qo. Acesso em 29 de julho de 2021, às 11h30.

Eduardo Bueno opina sobre o incêndio da Estátua de Borba Gato. Disponível em https://www.instagram.com/p/CRzJwTogSBf/. Acesso em 29 de julho de 2021, às 11h30.

“O Brasil maltrata o Brasil. Não foi o Borba Gato que queimou; fomos nós”. Disponível em https://www.em.com.br/app/colunistas/ricardo-kertzman/2021/07/25/interna_ricardo_kertzman,1289721/o-brasil-maltrata-o-brasil-nao-foi-o-borba-gato-que-queimou-fomos-nos.shtml. Acesso em 29 de julho de 2021, às 11h30.

Evolução do interesse pela expressão “quem foi borba gato” ao longo dos últimos cinco anos. Disponível em https://trends.google.com/trends/explore?date=today%205-y&geo=BR&q=quem%20foi%20borba%20gato. Acesso em 29 de julho de 2021, às 11h30.

“Por que Borba Gato é alvo de projetos de lei que propõem tirar seu nome de espaços públicos em São Paulo”. Disponível em: <<https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2021/07/25/por-que-borba-gato-e-alvo-de-projetos-de-lei-que-propoem-tirar-seu-nome-de-espacos-publicos-em-sao-paulo.ghtml>>. Acesso em 29 de julho de 2021, às 11h30.

Lopes, Flávio Renato de Aguiar. Desnazificação na Europa e sua repercussão na Alemanha e na Áustria: uma abordagem político-econômica. Disponível em https://bdm.unb.br/handle/10483/15969. Acesso em 26 de julho de 2021, às 11h30min.

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